19 maio 2016

AS MÃOS FALAM


(Livre adaptação do Monólogo das Mãos, de Ghiaroni)


Nascemos amparados por mãos, 
elas nos alimentarão, nos embalarão. 
Oferecerão o alimento dos seios,
irão pentear os nossos cabelos.
Antes mesmo de sabermos andar,
pelas mãos que caminharemos, 
podendo cair, podendo levantar.
Crescemos, aprendemos voos, 
Esculpimos abraços, naves, nuvens.
Com as mãos o agricultor semeia, 
o soldado guerreia, o músico faz flores,
o juiz fecha e abre a porta da cadeia
a criança constrói castelos na areia.
Mãos constroem pontes, muros, castelos,
pedem esmolas nas sinaleiras, 
querem salvação nos templos,
provocam feridas, fazem curativos.
Dançam no ar, comandam computadores 
que comandam as naves e os mísseis
que riscam o céu - onde voam as pipas
que saem das mãos dos meninos 
nos primeiros desenhos de suas vidas.
Quem nunca precisou da mão 
ou estendeu a sua para um amigo? 
Com elas tapamos os olhos para não ver,
protegemos a vista para ver melhor.
Para o que mais servem mãos 
quando não estão nos bolsos 
ou cruzadas sobre o peito?
Chamam táxis, ameaçam, recusam, 
interrogam, levam outras para passear.
Regem, tocam, lançam, pintam, aplaudem. 
Pescam, caçam, escravizam outras. 
Plantam, colhem. Pagam, recebem. 
E rezam. E oram. E pedem.
Votam, descascam batatas, arrependem-se. 
Voltam a acreditar nas mãos da justiça,
bebem mate, enchem linguiça.
Fecham-se para brigar, unem-se para amar.
Todas as histórias são escritas por elas.
A mão colhe mel, joga palavras no papel.
Atira a pedra, a flor, a bomba, o beijo 
e na boca amiga do cão vira lambida.
Bate no couro do pandeiro, do tambor,
dedilha cordas no violão, no violino.
Atira granadas e solta balões.
Acende fogueira, abre torneira, poda roseira.
A mão do Tempo embala sonhos,
aventuras, dias e noites.
O amante pede a mão da amada, 
depositando nela o seu coração.
A mão que vicia não é a mesma que acaricia.
A mão que humilha pode reconciliar.
A mão que teima é a mesma que comanda.
A mão que acusa pode homenagear.
A mão que rouba não é a mesma que entrega.
A mão que condena pode encorajar.
O dedo que aponta para o nariz da criança
pode apontar horizontes na asa da borboleta.
No ato final, quando os olhos se fecham, 
coração cala e o silêncio do mundo fala, 
as mãos dos amigos nos conduzem, 
as mãos da vida se despedem de nós,
as mãos dos coveiros nos enterram, 
as mãos da Natureza nos recebem
nas mãos amorosas do Universo.



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