08 outubro 2015

NA ASA DO PASSARINHO









Vou-me embora para Macondo,
lá sou amigo de Mario Benedetti,
vou sentar com Garcia Marques,
beber café com Juan Carlos Onetti.
Lá a vida é de tal forma incandescente,
Jorge Amado e Mario de Andrade
jogam sinuca com os atentos Scorza e Fuentes,
Carpentier joga baralho com Astúrias e Galeano.
Vou-me embora para Aldebarã,
ver Manuel Bandeira recitar Zé Limeira.
Lá não terá corrupção nem Copa do Mundo
e a vida misteriosa será um realismo cristalino,
feito pião de vidro na mão do menino.
Lá tocarei chocalho com Tio Teréco
e quando de noite me der saudade,
posso soltar borboletas ao redor da cabeça,
ganhar cafuné preguicento e luaminoso
dos dedos grossos e cheirosos de Clementina
- porque lá é sempre dia de aniversário
& páscoa & natal & carnaval
e Cartola faz samba com Adoniran e Noel,
Castro Alves e Quintana bordam galanteios
para os seios redondos e rimados de Cecília,
Lorca e Maiakovski tecem grinaldas
e baladas de amor para O Sol e a Lua.
Caio bebe chá com Clarice e fuxicam
sobre rendeiras e rezadeiras e cirandeiras
com Murilo Rubião e Osvaldo de Andrade,
Simões Lopes conversa com Câmara Cascudo
(onde foram parar as canetas de Sábato
e as lunetas fantasmagóricas de Borges?).
Arguedas e Juan Rulfo cochilam e roncam
na beira do fogo sagrado das cordilheiras,
Cortázar canta ciranda para ninar Cronópios.
Vou-me embora para Terra-Sem-Males,
lá terei a vida nos poemas que lerei,
Vou-me embora para a Pachamama de Mavutsinim,
onde amores nascem em rasgos mágicos,
onde é permitido cantar e colher flores e mel
bordados em nacos de céu e canteiros de estrelas,
amores são rasgos mágicos de água e vento
e a palavra se aninha na folha de papel.




01 outubro 2015

PELA ORDEM NATURAL DAS COISAS




mesmo que flores murchem
mesmo que oceanos sequem
mesmo que árvores sangrem
mesmo que crianças chorem
mesmo que canções se calem
pela ordem natural das coisas
as coisas estão em ordem

mesmo que dores gritem
mesmo que luas incendeiem
mesmo que carrascos voltem
mesmo que sonhos evaporem
mesmo que poemas se apaguem
pela ordem natural das coisas
as coisas estão em ordem

ainda que montanhas morram
pássaros escondam voos
a mulher e o homem se amem
se afastem se esqueçam
e nunca mais se falem
pela ordem natural das coisas
as coisas estão em ordem

(mas isso não proíbe nem impede
que elas, coisas, se transformem)


*

poema: mario pirata
arte: david heger