30 março 2010

CORDEL DITADO

CORDEL DITADO
(Edição e adaptação: Mario Pirata)

A vida é um tanto assim,
pouco se basta, muito se gasta.
Uns armam o circo, outros batem palma.
Tropeiro fala de burro, boiadeiro fala de boi,
moça de namorado e velho do que já foi.

Se grito resolvesse algo
o porco não virava linguiça.
Suspiro de rato não derruba queijo.
Se barba fosse respeito, bode não usava chifres.
Cuida da vida dos outros quem se esquece da sua.

Mais há quem suje, é certo,
do que quem passe a vassoura.
Não venda o couro antes de pegar a onça.
Se o moço soubesse e o velho pudesse,
nada haveria no mundo que não se fizesse.

Para baixo todo o santo ajuda.
O boi manso é que vai arrombar a porta.
Espinho que pinica de pequeno já traz a ponta.
Carro de boi pesado é que canta.
Galo onde canta, janta.

Galinha de olho torto procura o poleiro cedo.
Casa onde canta o galo é porque mora gente,
casa onde a galinha canta até o galo bota ovo.
Galo cantando fora de hora
é moça roubada dando o fora.

Cobra parada não come o sapo.
Sapo não ronca fora da lagoa.   
Mais burro é quem tem burro e anda a pé.
Fica pior do que está
quem quer ser mais do que é.

Roupa suja se lava e se enxágua em casa.
Na boca de quem não presta,
quem é bom não tem valia.
Urubu não vai comer aquilo que não conhece.
Cada um recebe o que merece.

Gavião pega o pinto, mas respeita o galo.
Em terreiro de galinha, barata nunca tem razão.
A galinha do vizinho é sempre mais gorda.
Casa onde tem alguém chamado João,
o tal coisa-ruim não dança no portão.

Não há maior surdo
do que aquele que não quer ouvir.
Não há cego que se veja,
nem torto que se conheça.
Um homem prudente vale dois valentes.

Não censure a dor alheia
quem as dores sentiu.
Aonde vai o ferro, também vai a ferrugem.
Deus dá a farinha, vem alguém rasgar o saco.
Não vai se assustar quem confia no seu taco.

A carreta geme, quem sofre é o boi.
Caranguejo não anda em linha reta.
Farinha ruim não dá bom pão.
Casa onde falta pão, todos brigam,
ninguém tem razão.

Macaco velho não bota mão em cumbuca,
não briga com o pau onde sobe,
nem senta em galho podre.
Não faças ao teu vizinho
que o teu já vem a caminho.

Nada duvida quem de nada sabe.
Começado e não acabado vale por estragado.
A mancha pega é na fazenda fina.
E não se elogia o burro
antes de atravessar o banhado.

Cachorro não senta em banco
porque o rabo não deixa.
A tromba do porco não vai matar mosquito.
Na porcada, o que mais fuça
é o que mais engorda.

Bom cabrito não berra.
Bobagem é espirrar na farofa.
Não adianta fazer cócegas em defunto.
E é na margem do charqueiro
que se conhece o cavaleiro.

A dor ensina a gemer.
Não é o sol que faz a sombra e boa sombra
vai cobrir quem à boa árvore se chega.
Amigo ruim, faca que não corta,
que se perca, pouco importa.

Cada um dá o que tem
e dá o passo conforme o tamanho da perna.
Só se sente falta d’água quando o pote está vazio.
Pretensão e água benta,
cada um tem quanto quer.

Na falta de um grito
morre o burro no atoleiro.
Se o pau é torto, a sombra não pode ser reta.
Toda doçura, ai de mim, custa uma amargura.
Ai de mim, tudo na vida tem fim.

Tamanco faz zoado, mas não fala.
Em baile de cobra, só indo de bota.
Do livro fechado não sai nenhum letrado.
E esse arrazoado mal rascunhado

é apenas um cordel ditado.





16 março 2010

DESENCALHE


(foto de Gabriela Corseuil)

Amazonas
com seus mitos

Congo
com suas corredeiras

Danúbio
com suas valsas

Mississipi
com seus blues

Nilo
com suas pirâmides

Uruguai
com suas milongas

Guaíba...
com seus prédios