30 julho 2009

barbaridade


matutei barqueiro num povoado do Maranhão Pernambuco Paraíba Amapá Mato Grosso lugarejo outro que fosse antes azedo do que doce miserando trabalho para fazendeiro trapaceiro algum filho da égua de um latifundiário nas Alagoas Goiás Pará Espírito Santo Ceará tava eu querendo embrenhar com bicharia fosse na grota da desgraceira na ribanceira do malassombrado matutei jeito morno de viver namorar Ararajuba trançar rede com Socó-boi atinar cantoria com Sabiá-de-coleira voejar com Gavião-de-penacho-pega-macaco fazer dançaria com Sinhá-caturrita e parceria com Periquito-bunda-mole rendar com Inhambu-carapé navegar na bacia cheia d’água do Araguaia na jangada confeitada de toras de Ipê-roxo e Maçaranduba em vez olha eu aqui laçando Quero-quero nessa coxilha deitando solidão nos pelegos e saudade do aconchego das filhas podendo viver um jeito mais faceiro moldando o barro que o coisa-ruim largou lá pros lados do Ibicuí do Araguaia do Uruguai do Tramandaí do Purus ou a borracha do seringueiro quem foi que levou quem foi que levou e mais pamonha-tacacá-abará-cuscus-acarajé no panelão das ilhas de Marajó e Iboipeba era tudo de bom nesse cafundó verde-amarelo-azul-branco o povo brasileiro que nem égua no barranco afora pode que vinha cafuné um tiquinho de carinho da Maria-da-anca-fina da Sebastiana-da-perna-torta da Tereza-da-coxa-branca da Jurema-do-umbigo-fundo da Cristina-do-molha-pinto em vez olha eu aqui nessa Porto Alegre mal cuidada e gelada onde desassossego e desgoverno querem fazer rima com cantoria bem capaz nem peão vira capataz nem todo o mal que se faz pode pelear com a poesia que o teu sorriso me traz galopa em meu peito a quentura da paz quando eu te abraço por traz e quando você levanta a saia depois do ensaio meu coração vira um balaio nem que o presidente do país sofra um desmaio caia do galho e vire um papagaio daqui não mais eu saio

na Feira do Livro de TAPES



com o patrono, amigo e mestre Armindo Trevisan



fazendo folia


fotografado por Mariana Ribeiro




TRÊS CENAS

neto e prima

- Segura no meu pinto.
- Não, guri.
- Então vou gritar.
- Toma, vai comprar picolé.



neto e vó

- Conta história, vó.
- Já contei.
- Conta mais, vó.
- Não.
- Então vou chorar.



vó e neto (escutando)

- Ao homem que queria muito ser rei
foi dado um trono em chamas,
o homem se viu obrigado a sentar
e morreu queimado.