28 dezembro 2006

O ÚLTIMO UNICÓRNIO


O ÚLTIMO UNICÓRNIO
(A Metafísica, os Caracóis e o Lirismo).

1

“... Descobri outro dia que o Quintana na verdade é um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora”. – Érico Veríssimo, em texto de abertura de “Pé de Pilão”, 1ª edição, Ed. Globo, l975.

Caracol é caracol, Lesma é lesma.
O Caracol tem aquela casinha pra morar, levando-a consigo pra todo lugar. A Lesma não carrega casinha com ela. Esta, a principal diferença entre os dois e que se pode facilmente observar.
Uma coisa é uma coisa (o Caracol), outra coisa (a Lesma) é outra coisa.
Todo Caracol solta gosma, nem toda gosma é do Caracol.
A Lesma também é gosmenta. A mesma coisa não é a coisa Lesma.
O Boi não solta gosma, o Boi baba. Quem solta gosma é o Caracol. E a Lesma. A baba do Boi é uma coisa diferente da coisa gosma.
Vamos seguir esse raciocínio, lentamente.
Quando alguém pisa no Caracol, inadvertidamente, o Caracol deixa de ser algo que solta gosma e passa a ser uma gosma só - o que vem a ser outra coisa, é claro!
Dito isto, aceito por você e por mim, chegamos à pergunta que nos interessa:
— Por que os Caracóis andam devagar?
Ausência de pressa, calma demasiada, cansaço físico ou mental? Somente a poesia nos leva a descobrir a resposta e a explicação corretas:
“Os Caracóis andam devagar porque são eles que fazem a Terra girar”.
E como diria uma menina de sete anos que conheci em uma escola por aí:
— Óbvio, óbvio!

2

“... E agora sonhamos as palavras que o poeta Quintana acordou”. – Carlos Nejar, em Discurso sem Método (ou como conversar com os poemas de Quintana).

Alguém poderá argumentar, com toda a razão: “Todos os caracóis não caminham na mesma direção! Facilmente encontramos caracóis andando em direções diferentes, até mesmo opostas”.
— Óbvio, óbvio!
Por certo, andassem eles no mesmo rumo, a rotação da Terra seria de tal forma que sequer estaríamos nós aqui, examinando com dedicação e cuidado a natureza dos caracóis e das lesmas. Voaríamos pelo espaço, a velocidades estonteantes.
Eles, os Caracóis, distribuem-se pela superfície do planeta de modo a fazer com que o mesmo gire suave e delicadamente. Há um equilíbrio, uma harmonia nisso tudo, nessa movimentação aparentemente aleatória. E silenciosa. Caracóis e poetas movem-se em silêncio, quase sempre. Os fantasmas e as crianças também.
Portanto, não se deve jamais, em hipótese alguma, tirar o Caracol de seu caminho, muito menos pisar (inadvertidamente) sobre ele. Isto é o fator causador de cataclismos e tragédias ecológicas de proporções muito grandes: terremotos, vendavais, maremotos, e outras convulsões inaceitáveis.
Podemos constatar, com uma simples e direta observação: nas proximidades de um Caracol há sempre um outro, pousado em alguma folha ou pedra, pronto a ocupar rapidamente (o rapidamente dos Caracóis... não o nosso, é óbvio!) o lugar daquele, no caso de alguma pisadela distraída. No entanto, dentro da fração de tempo desigual entre um rapidamente e outro é que acontecem as grandes perturbações em nosso meio ambiente. Infelizmente.
Quintana? Calma, já vamos falar dele.

3

“... A poesia é o brinquedo das cismas. Os poetas foram crianças sós e pobres que adoravam se divertir com os próprios devaneios, substituindo com vantagens, para o desenvolvimento de sua criatividade, as programações estandardizadas dos jardins de infância e os discutíveis brinquedos pedagógicos, não obstante o primeiro impacto de sua engenhosidade. Entregue a si mesma, sua imaginação recebe e emite aladas mensagens, através do resplendor mágico que anima de gradações de arco-íris o suceder de seus dias”. – Cyro Martins, em “Nota sobre Mario Quintana”.

Existe gente, vejam só, que come Caracóis. Outros, ainda, usam Lesmas como alimento. Ambos os casos, uma barbaridade que ocasiona terríveis e constrangedoras situações na história da vida em nosso mundo. Muito embora, para a nossa sorte, não se tenha ouvido falar de quem coma Caracóis com Lesmas, o que vem a ser um consolo.
Pode-se imaginar um indivíduo, de cócoras ou agachado, catando esses animaizinhos (tão importantes e significativos) pelo chão?
Caracóis e Lesmas são sensíveis e muito suscetíveis. Poetas e crianças também. Um ato violento pode gerar transtornos profundos que serão transmitidos geração após geração, geneticamente – sim, é óbvio, também possuem DNA e outras coisas que poderemos analisar mais detalhadamente em estudos e pesquisas futuras. Mas isso somente quando falarmos da significação de Caracóis e Lesmas na dinâmica do sistema solar e no conjunto das normas e conformidades cósmicas, ufa!
Mas isto, é óbvio, já é outra coisa! Agora podemos falar do paradigma, do paradoxo, do pára-choque, do pára-brisa. E do Mario. O Malaquias.

4

Mario Quintana é um Unicórnio, pode ser também que seja um Centauro. Dos primeiros guarda a naturalidade inimitável de um velho baú esquecido no fundo do mar de nossa memória lúdica. Dos segundos possui a riqueza da sintaxe brejeira da água da chuva bebida nas conchas das mãos.
Podia ser o que quisesse. Tem e tinha esse poder. Tornar simples o complicado, diria Charles Mingus, o músico. Fazer a gente olhar pra dentro e acordar, diria Carl Jung, o sonhador.
Quintana é mestre, craque nisso: falar aos homens e mulheres no que ainda há de pureza e delicadeza dentro deles, tocar a criança de cada um com o olhar firme e certeiro de um dragão que solta fogo pelo rabo ou de um navegador de estrelas cadentes.
Escreveu para crianças, imprescindível. Mas pode ser lido em qualquer momento, em qualquer condição. Qualquer título, inevitável. Enquanto pais, doutores, outros autores olham para a tromba e as orelhas, ele sempre chamará a atenção para o rabo de barbante do elefante.
Quintana era mais que gauche, era um torto. Misterioso, porém claro como um olho aberto. Cheio de estilo, um Centauro arpoador de sentidos. A crina de Unicórnio enfeitada de anêmonas e manhãs.
“Poeta das quinta-essências humanas” – escreveu alguém, não lembro quem –, Quintana importa ao pequeno leitor por ser um amansador de gente grande. Alguém que pode falar com alegria aos nossos fantasmas e circular por nossos jardins e em nossas vidas com a grandeza incandescente de um Meteoro, de um Caracol, de uma Lesma.


Texto para a revista Porto y Virgula de Porto Alegre, inverno de 2004.

Um comentário:

Katia Horn disse...

essa semana encontrei nos meus arquivos esse texto fofo que vc me mandou há uns dois anos... reli e reri e outra vez me emocionei... até encaminhei pra uns amigos que precisam saber essa história de quem é que move o planeta... Grata, Mário, pela profundidade, pelo olhar lúdico e tão verdadeiro!
Beijos muitos!!!