29 dezembro 2006

Figurinha

O FAZEDOR DE BALÕES


Olha o balão soprando alegria
no coração da gente.
Olha o balão amarelo
Para amar e ser sincero.
Olha o balão azul, azul anil
da cor do céu do Brasil.
Olha o balão lilás:
a saudade que leva,
a saudade que traz.

Para quem acha que o mundo é bom,
o balão marrom.
Para comer nhoque, o balão rosa-choque.
Para fazer careta, o balão violeta.
Para olhar o futuro, o balão escuro.
Para ganhar carinho, o balão branquinho.
Para quem usa franja, o balão laranja.
Para a vida ficar incrível, o balão invisível.
E o balão branquinho para nunca ficar sozinho.

- Olha o balão, olha o balão...
E o balão vermelho encarnado,
para a namorada, para o namorado.

Com o balão verde,
da cor da floresta,
a noite vira dia,
o dia vira festa.

Como a água do rio correndo no leito,
o coração é balão guardado no peito.
E o balão colorido faz
o mundo ficar mais divertido.

Faça chuva, faça vento,
leve balão, seu moço,
leve sentimento.

Figurinha fácil

DIAMANTE



um pássaro
pousado no peito

um passo para mais perto
de quem a gente quer bem


um abraço
na forma de laço

recheado com a alegria
que cada um tem

um pássaro
aninhado dentro

o carinho nas asas
vale ouro vale prata

não sendo isso não fosse tudo
nada seria a amizade

28 dezembro 2006

POEMA NO ÔNIBUS

foto de Luis Ventura

O ÚLTIMO UNICÓRNIO


O ÚLTIMO UNICÓRNIO
(A Metafísica, os Caracóis e o Lirismo).

1

“... Descobri outro dia que o Quintana na verdade é um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora”. – Érico Veríssimo, em texto de abertura de “Pé de Pilão”, 1ª edição, Ed. Globo, l975.

Caracol é caracol, Lesma é lesma.
O Caracol tem aquela casinha pra morar, levando-a consigo pra todo lugar. A Lesma não carrega casinha com ela. Esta, a principal diferença entre os dois e que se pode facilmente observar.
Uma coisa é uma coisa (o Caracol), outra coisa (a Lesma) é outra coisa.
Todo Caracol solta gosma, nem toda gosma é do Caracol.
A Lesma também é gosmenta. A mesma coisa não é a coisa Lesma.
O Boi não solta gosma, o Boi baba. Quem solta gosma é o Caracol. E a Lesma. A baba do Boi é uma coisa diferente da coisa gosma.
Vamos seguir esse raciocínio, lentamente.
Quando alguém pisa no Caracol, inadvertidamente, o Caracol deixa de ser algo que solta gosma e passa a ser uma gosma só - o que vem a ser outra coisa, é claro!
Dito isto, aceito por você e por mim, chegamos à pergunta que nos interessa:
— Por que os Caracóis andam devagar?
Ausência de pressa, calma demasiada, cansaço físico ou mental? Somente a poesia nos leva a descobrir a resposta e a explicação corretas:
“Os Caracóis andam devagar porque são eles que fazem a Terra girar”.
E como diria uma menina de sete anos que conheci em uma escola por aí:
— Óbvio, óbvio!

2

“... E agora sonhamos as palavras que o poeta Quintana acordou”. – Carlos Nejar, em Discurso sem Método (ou como conversar com os poemas de Quintana).

Alguém poderá argumentar, com toda a razão: “Todos os caracóis não caminham na mesma direção! Facilmente encontramos caracóis andando em direções diferentes, até mesmo opostas”.
— Óbvio, óbvio!
Por certo, andassem eles no mesmo rumo, a rotação da Terra seria de tal forma que sequer estaríamos nós aqui, examinando com dedicação e cuidado a natureza dos caracóis e das lesmas. Voaríamos pelo espaço, a velocidades estonteantes.
Eles, os Caracóis, distribuem-se pela superfície do planeta de modo a fazer com que o mesmo gire suave e delicadamente. Há um equilíbrio, uma harmonia nisso tudo, nessa movimentação aparentemente aleatória. E silenciosa. Caracóis e poetas movem-se em silêncio, quase sempre. Os fantasmas e as crianças também.
Portanto, não se deve jamais, em hipótese alguma, tirar o Caracol de seu caminho, muito menos pisar (inadvertidamente) sobre ele. Isto é o fator causador de cataclismos e tragédias ecológicas de proporções muito grandes: terremotos, vendavais, maremotos, e outras convulsões inaceitáveis.
Podemos constatar, com uma simples e direta observação: nas proximidades de um Caracol há sempre um outro, pousado em alguma folha ou pedra, pronto a ocupar rapidamente (o rapidamente dos Caracóis... não o nosso, é óbvio!) o lugar daquele, no caso de alguma pisadela distraída. No entanto, dentro da fração de tempo desigual entre um rapidamente e outro é que acontecem as grandes perturbações em nosso meio ambiente. Infelizmente.
Quintana? Calma, já vamos falar dele.

3

“... A poesia é o brinquedo das cismas. Os poetas foram crianças sós e pobres que adoravam se divertir com os próprios devaneios, substituindo com vantagens, para o desenvolvimento de sua criatividade, as programações estandardizadas dos jardins de infância e os discutíveis brinquedos pedagógicos, não obstante o primeiro impacto de sua engenhosidade. Entregue a si mesma, sua imaginação recebe e emite aladas mensagens, através do resplendor mágico que anima de gradações de arco-íris o suceder de seus dias”. – Cyro Martins, em “Nota sobre Mario Quintana”.

Existe gente, vejam só, que come Caracóis. Outros, ainda, usam Lesmas como alimento. Ambos os casos, uma barbaridade que ocasiona terríveis e constrangedoras situações na história da vida em nosso mundo. Muito embora, para a nossa sorte, não se tenha ouvido falar de quem coma Caracóis com Lesmas, o que vem a ser um consolo.
Pode-se imaginar um indivíduo, de cócoras ou agachado, catando esses animaizinhos (tão importantes e significativos) pelo chão?
Caracóis e Lesmas são sensíveis e muito suscetíveis. Poetas e crianças também. Um ato violento pode gerar transtornos profundos que serão transmitidos geração após geração, geneticamente – sim, é óbvio, também possuem DNA e outras coisas que poderemos analisar mais detalhadamente em estudos e pesquisas futuras. Mas isso somente quando falarmos da significação de Caracóis e Lesmas na dinâmica do sistema solar e no conjunto das normas e conformidades cósmicas, ufa!
Mas isto, é óbvio, já é outra coisa! Agora podemos falar do paradigma, do paradoxo, do pára-choque, do pára-brisa. E do Mario. O Malaquias.

4

Mario Quintana é um Unicórnio, pode ser também que seja um Centauro. Dos primeiros guarda a naturalidade inimitável de um velho baú esquecido no fundo do mar de nossa memória lúdica. Dos segundos possui a riqueza da sintaxe brejeira da água da chuva bebida nas conchas das mãos.
Podia ser o que quisesse. Tem e tinha esse poder. Tornar simples o complicado, diria Charles Mingus, o músico. Fazer a gente olhar pra dentro e acordar, diria Carl Jung, o sonhador.
Quintana é mestre, craque nisso: falar aos homens e mulheres no que ainda há de pureza e delicadeza dentro deles, tocar a criança de cada um com o olhar firme e certeiro de um dragão que solta fogo pelo rabo ou de um navegador de estrelas cadentes.
Escreveu para crianças, imprescindível. Mas pode ser lido em qualquer momento, em qualquer condição. Qualquer título, inevitável. Enquanto pais, doutores, outros autores olham para a tromba e as orelhas, ele sempre chamará a atenção para o rabo de barbante do elefante.
Quintana era mais que gauche, era um torto. Misterioso, porém claro como um olho aberto. Cheio de estilo, um Centauro arpoador de sentidos. A crina de Unicórnio enfeitada de anêmonas e manhãs.
“Poeta das quinta-essências humanas” – escreveu alguém, não lembro quem –, Quintana importa ao pequeno leitor por ser um amansador de gente grande. Alguém que pode falar com alegria aos nossos fantasmas e circular por nossos jardins e em nossas vidas com a grandeza incandescente de um Meteoro, de um Caracol, de uma Lesma.


Texto para a revista Porto y Virgula de Porto Alegre, inverno de 2004.

Um poema de LUIS FERNANDO VERÍSSIMO



LIMPEZA PÚBLICA


O poeta é um reciclador
Das palavras de todo dia
Do verbo de toda hora
Que se usa e bota fora
Separa o descartável
Do reaproveitável
E o bonito da bobagem.
A poesia
É o lixo limpo
Da linguagem.

27 dezembro 2006

DEMANDA

DO GURI QUE DESEJAVA SER ESCUDEIRO

foto: Luis Ventura


Essa tua vida larga, cavaleiro,
eu não alcanço, não reclamo.
Nela acompanho o traçado
delineando coragem e canto.

Vou me arranjando, Quixote,
arrancando as ervas rasteiras.

Na caminhada, aos trancos,
levo o olhar pela estrada
e ligeiro como cavalo sem doma
acrescento ternura aos avanços.

Vou me arranjando, Quixote,
arrancando as ervas rasteiras.

É lenta a paisagem dos anos
para quem traz o coração manso
e trezentas luas faceiras
acarinhadas no peito, por encanto.

em "Calcinha rosa na cadeira de balanço"

NA LÍNGUA DO PÊ

Marguerite - pintura de André Martins de Barros



Passarinho – O mistério perdido no coração pode ser despedido com delicadeza, um novo encanto talvez apareça e nos pegue pela mão.

Portal – Qualquer lugar é o lugar certo para trocar abraços quando o coração está aberto.

Paradigma - Descascando a laranja, encontramos os gomos. Dispomos a natureza, aparada a franja do sonho.

Postulado - Mestre não é só quem diz as coisas que precisamos escutar, mas quem escuta as coisas que precisamos dizer.

21 dezembro 2006

AGENDA

foto: Tayhú

nascer de novo
fazer relaxamento
colocar rede (dormir no chão)
comprar chaleira
rolar como seixo
acabar com o mimo
cortar cabelo e ficar bonito
jogar nenhum jogo com o desejo
continuar amando ela


HAICAI DO TERCEIRO MUNDO



Criança dormindo na rua.
Quem finge que não vê,
acaba não vendo que finge.

PEQUENA HISTÓRIA

(foto: cabeças esculpidas por Daliana Mirapalhete)


Negros acham que
brancos cantam pouco
índios acham que
brancos falam muito
ciganos acham que
brancos dançam pouco
brancos acham tudo
e massacram muito

- em "Cambalhota"

PEQUENA CIRANDA


Com a pá da palavra tirar
a palha da palavra atrapalhada,
o mar da palavra amarelo,
o azul da palavra azulejo.
Com a pá da palavra tirar
o amor da palavra namorada
e ver que sobra nada.


- em "O Fazedor de balões"

20 dezembro 2006

TIROTEIO BLUES

SERVENTIA ou PARA ONDE VOAM OS DINOSSAUROS


arte: GEOFF HOCKING



não defende teses não alimenta preces
não roga pragas não combate males
não precisa nada o poema
pode surgir do encantamento
falar de um acontecimento

não embala esperanças
não engorda larvas
não castra crianças não atravessa vales
não precisa ser difícil ou simples
pode ser cantarolado
ou rabiscado do princípio ao fim

não precisa ser grande
não precisa ser pequeno

montanha gigantesca ou grão de areia
na medida de quem o faça
de quem o leia
          
II
pode o sabor de um copo d’água
calar a sede com a gota cristalina
que nos atira indefesos na vertente
no riacho na lagoa no mar

quer a inocência do carinho
a insignificância de um beijo
a irrelevância do voo da fada
do pássaro dentro do ninho

existe porque não acontece
deixar de ser feito: 
flor no jardim
amor dentro do peito

o poema não serve para nada
que não sirva para ser um poema